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17.11.04
Agora toca um Legião... O violão em um churrasco, é como o cetro que confere a majestade; é como o martelo que identifica o rei nórdico, como a bomba atômica que subjuga nações, ou mesmo como o amuleto de um mesmero hipnotizador. Não sou radical a ponto de dizer que todas as rodinhas de violão são irritantes; mas 97% seguramente são. Entre os fatores mais irritantes sobre rodinhas de violão estão - todos empatados em primeiro lugar - o fator do "cara que só enrola e não toca", os "idiotas" e o fator "Legião". O mais engraçado de tudo é que não é preciso saber tocar, basta possuir o instrumento. O cara que só enrola e nunca toca é o dono do violão (e entenda essa expressão da mesma forma que "o dono da bola"). Ele toca três notinhas nas cordas e pára; arruma daqui, mexe dali, toca mais um pedacinho de 2 segundos e pára; toma uma cervejinha, pensa em voz alta "comé que era aquela...", toca mais um pedacinho, murmura o começo do refrão com a voz assim meio "pra dentro", quase inaudível, e pára. Se um evento antes não tinha centro, se era uma divertida reunião de amigos, todos com todos conversando e brincando e bebendo e comendo, agora um resolveu se destacar. Mais do que tocar violão, o cara tá ali pra fazer uma gracinha, deixar todo mundo esperando, aparecer pras gurias, ser o centro das atenções. Nisso, os idiotas já estão amontoados ao redor do dono do violão, às vezes como criancinhas deslumbradas, de olhos esbugalhados esperando o mágico tirar o coelho da cartola, e o tal coelho não sai nunca. Outras vezes, numa forçada situação hippie, num ar meio falso de serenidade, enquanto a música mesmo não engrena. Talvez não seja exagerado comparar a situação com a de um imperador sentado em um trono no interior de um daqueles belos templos de mármore greco-romanos, comendo frutas com as mãos e bebendo vinho, enquanto um monte de gente sem sexo definido, meio despidos e meio enrolados em panos, amontoam-se, promíscuos, pelo chão e pelas escadinhas aos pés do imperador (sem querer enfatizar aqui a obscenidade, mas a idolatria e uma certa utopia social transgênera). Note-se que qualquer outra atividade passa a ser terminantemente proibida, e pobre daquele que ousar fazer outra coisa durante a rodinha de violão: será terrivelmente censurado e reprovado pelos outros. Se é um churrasco, acabou o churrasco. Não se pode mais conversar, não se pode mais contar piada ou discutir futebol, porque vai "atrapalhar a música"... como se houvesse música! Por decreto de uma maioria de maria-vai-com-o-violão, quem quer aproveitar o churrasco ou o evento que for, fica subjugado àquela monotonia. É importante esclarecer que, se houvesse música, e música boa, seria ótimo; eu mesmo quero aprender gaita de boca (o que também será a minha arma pra me defender contra a hegemonia do dono-do-violão em churrascos). Afinal, quem não gosta de ir com amigos a um restaurante de música ao vivo? Mas nem por isso os frequentadores do local são obrigados a parar suas atividades e amontoarem-se, no chão, ao redor do músico. Quando o dono do violão já enfeitiçou completamente seus súditos, o que também serviu para condenar à morte em praça pública os seus opositores, por manipulação da opinião da maioria, é dada a um dos hipnotizados a função de carrasco; e o tiro derradeiro, a lâmina que extirpa o céfalo, a corda que desnuca, será disparada, sem capuz, ao soar da sentença de ordem: "Agora toca um Legião". Aliás, se fosse apenas a morte, seria suportável. Mas isto é como ser mandado vivo para o inferno. Se tiveres sorte, cairás nas mãos de um carrasco amigo, que atenuará seu sofrimento, ordenando "Agora toca Raul", porque, pelo menos, Raul Seixas é bom.
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